segunda-feira, 28 de novembro de 2016

o banho


















aquele banho era especial. era um banho para lavar tristezas. deixou a água correr sobre o seu corpo cansado, tão quente quanto lhe era possível suportar, depois ensaboou-o entoando cantigas de mimar, verteu sobre si mesma uma infusão de alfazema e hortelã, e enrolou-se no toalhão que ele lhe oferecera um dia. 'serão nos meus braços que te envolverás', disse-lhe como se fosse um feitiço que lhe lançava, e lançou, como todas as palavras que lhe deixava escondidas nos lugares mais recônditos da alma, sem o saber.

ela sabia que tinha sido fadada para se desencontrar, mas estava decidida a contrariar o seu fado. começaria ao contrário, encontrando-se para dentro, e só depois para fora.

com o corpo perfumado pelas plantas que ela mesmo criara, deitou-se, corpo nu, que os dedos tacteavam, tentando adivinhar como o sentiria se não o pudesse ver, ao corpo. a pele macia e morna, as formas, a densidade da carne, o fremir de dentro de si, vida latente.
gostava de se deitar sem sono, e, depois do seu modo de falar com ele, ficava quieta, deixando que os pensamentos viessem ao ser encontro e entrassem no sono sem se aperceber.

ela vivia ao contrário, procurava perguntas e caminhava para a origem.