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é domingo. em frente a mim está a noite. eu tenho frio, as maçãs do rosto geladas, os braços arrepiados, os pés frios, a cabeça vazia, os cestos da lenha cheios, uma semana de susto pela frente, vontade de nada. só o hurican para me fazer escrever. uma hora e meia para escrever aquilo.
agora, ao meu lado está um livro aberto para eu não ler.
ficarei quieta à espera de perceber o que me falta.
Depois de chorar toda a noite, para cristalizar estrelas no
céu, é de manhã que me é permitido ser criança. Então Iemanja eleva-se do mar, veste-me de espuma,
perfuma-me de maresia, e de mãos dadas, apanhamos beijinhos com que fazemos grinaldas
para quando Hurican chegar. Quando ele vem, eu criança, corro para ele, e ele
desfaz a bruma para os pescadores encontrarem o caminho para casa, e rimos. Quando
ele ri, o sol ri-se também, e as anémonas-do-mar fecham-se com pudor por
assistirem a nós, que a alegria nos faz ser, ora um, ora dois, ora areia, ora
onda, ora vento. E como eu gosto de ser vento e entrar-lhe por todos os poros e
fazer com que ele me respire e ficar aninhada no peito dele, por dentro,
protegendo o seu coração, para que não se magoe.