quinta-feira, 17 de novembro de 2016

o ar hoje sabia a azul




























tão habituada que estou ao silêncio, 
que fico atordoada com a pessoa que, 
frente a mim, 
dispara palavras e ideias em todas direcções.


esta manhã o ar estava tão bom de respirar, que eu saboreei lentamente cada respiração, como se o ar tivesse sabor, só depois me disseste que o ar sabia a azul, e eu percebi.

o corpo está-me cheio de tristeza, e foi assim sem saber como. primeiro um cansaço, depois uma distracção, uma palavra à toa, e de repente as mãos. acho que a tristeza começa pelas mãos a não quererem fazer nada, então, o corpo vai todo num arrasto, num esforço, e os lábios curvam, e as pálpebras tombam, e o peito encolhe e de repente parece que uma aranha me embrulhou na sua teia, teia de tristeza.

então eu lembro-me do ar da manhã e finjo que durmo, e tudo dentro de mim procura o ar com sabor a azul. mas há dias em que eu não me basto, então olho à volta, mesmo com os olhos fechados, e tento abrigar-me dentro de mim. nem sempre consigo.










tudo morto, uma ova








podes entrar que está tudo morto, diz-me a dona da peixaria, enquanto se ri. toda a gente sabe que não consigo assistir à agonia do pescado na bancada da loja. riem-se de mim, pois o atractivo do estabelecimento é a frescura do peixe, do peixe vivinho à espera da faca, moribundo em cima do gelo. exactamente o espectáculo que eu não suporto.
então a dona do sítio garante-me que o linguado está morto, que posso levá-lo, e levo. ao lado, uma senhora questiona sobre a tenrura de um polvo, enquanto o dono do dito lhe diz que é de garantia. uns dias em água com sal, depois o congelador, e vai parecer manteiga. não sei, penso eu, se dá para barrar no pão, que depois desses preparos todos o bicho deve é estar podre. ao lado do animal, está outro da mesma espécie, e a cliente está indecisa entre o cinzento e o castanho, depois de ter reparado na expressão desconfiada da dona da bancada, quando o, por sinal marido, garantia as garantias à freguesa.
pois que ia pensar, disse a cliente, arqueando as sobrancelhas para a entendida, em tom de interrogação. depois digo-lhe, sussurrou a consorte do pescador. deixe-o morrer, que depois telefono-lhe. 
eu, saí dali a correr com o linguado na mão, sem saber se quem está para morrer é o polvo ou o marido da dita.