a mulher chegava a duvidar se vivia. esquecia-se. esquecia compromissos, marcações, nomes, caras. esquecia sofrimentos, alegrias, amores, desilusões. não sabia para onde ia tudo aquilo que esquecia. não sabia onde estava quando esquecia. a mulher também não pensava no futuro. não fazia planos, não ambicionava, não descontava para a reforma, não pensava na velhice nem na solidão. do presente sabia o que o corpo lhe dizia, o cansaço, o sono, a alegria, o frio, os olhos postos no mar, a vontade cada vez mais ténue.
e depois havia ele, ele, que ela não conhecia, ele, que ela não queria esquecer, ele que era o espelho da sua vida, sem passado, sem futuro, só o olhar liquido do mar, a leveza do vento, as sensações do corpo, a impermanência de tudo.


