skip to main |
skip to sidebar
na sexta-feira, ao sair para o fim-de-semana, o empresário repara que deflagrou um incêndio dentro das instalações da fábrica. na segunda-feira tenho que resolver isso, pensa, e sai.
estou igual
hoje é dia de ir ao café com calma, sem horas marcadas para ir ao talho e ao lidl e à peixaria e à frutaria. e o café é o do costume. o do vicio do descanso, da preguiça, ali onde não temos que pedir, nem escolher o pastel dividido, e onde ler o correio da manhã parece o melhor da informação. é ali sentada que penso no que tenho que fazer durante o dia, que planeio, que desvalorizo as preocupações, que respiro fundo.
mas hoje, e o tempo já vai para inverno, a manuela, naquela pressa toda dela que bem disfarça os diabetes que a limitam, resolve deixar a porta bem aberta nas minhas costas, fazendo o frio entrar pela roupa que ainda tem os descuidos do verão.
- cruzes, manuela, queres matar-me de frio?
- carago, as mulheres não têm sangue nas veias. não está frio nenhum! ainda só tive calor.
e lá vai ela, por entre as mesas, t-shirt e leggings ou jeggings, que nunca sei qual é qual, a praguejar pelo frio que sinto, naquela forma de falar que enche a boca de sílabas sonoras e depois solta-as de rompante com gargalhadas e impropérios à mistura.
- ninguém nos trata tão bem como tu, ninguém, em lado nenhum.
digo-lhe eu todos os dias.
- está bem, está bem, até amanhã.
enquanto, pela mão do joão, vejo isto, com o coração na garganta, pergunto-me porquê esta sensação de tristeza pela morte de alguém não conheço. é a perda irremediável, é a morte. é o não poder fazer o que não foi feito. é a impotência. é o e agora?. és tu.
como se na morte dele estivesse tudo o que não fiz, tudo o que posso perder, assim, enquanto pasmo sentada no sofá a olhar para pardais. enquanto gasto os dias com pouco mais do que trabalho.
[nunca fui a um espectáculo, nunca comprei um disco ou cd, nunca li um livro dele.]
a maré espalha um cheiro a lodo pela cidade. falta-me a maresia.