O que se passa?, pergunta. É que não se pousa, com vagar, o olhar em nada, diz-lhe ela naquele receio de que ele não a entenda. Nem o pensamento se demora, salta da frescura da manha, para um ecrã qualquer, vagueia pelas aves e pelas flores como se não se tratasse de milagres.
Tinha acabado de respirar o ar frio da madrugada, ao som do canto da ave, e das cores profundas de um dia que acorda depois de uma noite de temporal, inspirando o milagre da criação, e no mesmo minuto, baixado o olhar e a atenção para aquele teclado onde escreve só com a ponta dos dedos.
A vida acaba por passar sem que a saboreie, sem que a louve. Apenas instantes fugazes de prazer.

