domingo, 23 de outubro de 2016

engenho























então fizeram uma cidade com os sentimentos, e nessa cidade havia muros que os protegiam, um do outro. sabiam que não podiam atravessar essas barreiras, correndo o risco de estarem a invadir espaços profundos e movediços. e eram essas as margens que limitavam o que diziam e o que questionavam, um ao outro. podiam até dar asas aos seus sentimentos, se não manifestassem os mais fortes, ficando sempre, um no outro, a dúvida sobre o que o outro sentia. embora odiados por um, eram esses limites que os mantinham próximos, e tornavam possível aquele relacionamento que durou muito mais do que o esperado.

foi de repente que aconteceu. e seria preciso retroceder no tempo, não cronologicamente, mas em profundidade, para ver o momento em que começou a acontecer, quando, à medida que se distanciavam, um do outro, as muralhas começaram a diluir-se na névoa da memória longínqua. em simultâneo. 













a mosca










é domingo e a mosca continua aqui comigo. há vários dias que me faz companhia. assim que me sento e ligo o computador, a mosca pousa e saltita do ecrã para o teclado, do teclado para o ecrã, e neste instante, olha para mim do alto da minha sapatilha. deve querer por à prova a minha paciência, mas na verdade, começo a sentir carinho pelo insecto. é muito asseada, durante a maior parte do tempo, esfrega as pernas umas nas outras e de seguida a cabeça, passando outra vez da cabeça, a dela, para as pernas, as dela, também. 
eu fico a olhar esta forma de vida e não encontro muitas diferenças entre nós as duas. habitamos o mesmo espaço, pousamos as patas no mesmo teclado, olhamos uma para a outra. nunca a vi fazer nada de inconveniente nem condenável, nem sei se o criador terá maior ou diferente afeição por alguma de nós.
eu sou maior em tamanho, nada mais.











para ti