então encontro a mulher à saída do supermercado. aproxima-se da janela do meu carro, de onde lhe aceno com satisfação, esquecendo-me de fingir que não a vejo, e pergunta-me, com a cabeça inclinada, sobrancelhas arqueadas, e sorriso de quem espera um desabafo, uma lamuria, como está o meu filho. que está bem, respondo, e só nesse momento percebo que ela espera que me queixe, que me lamente da vida porque o rapaz desistiu da faculdade e eu não consegui impedir.
de sorriso aberto, ainda adianto que desenha e escreve dia e noite, e calo-me, com beijinhos para todos e até qualquer dia.
lembro-me quando ele era criança, ainda no primeiro ciclo, a professora deu-lhes a ouvir a 'pedra filosofal', e ele pequenino, teria sete anos, que já aí não gostava da escola, decorou o poema, cantava a canção, repetidamente. mais tarde, depois de sair da casa onde vivíamos com o pai dele, ele fechava-se no quarto a ouvir o 'muda de vida' dos humanos, tinha dez anos.
agora tem 21 anos e tem um sonho. as músicas que ouve não sei, mas sei que alimentam os seus ideais. enquanto eu pensava que ele estava nas aulas, na faculdade, ele estava na biblioteca a desenhar. só mo disse quando já era tarde demais para tentar impedi-lo, já tinham passados uns meses desde que faltava às aulas sem eu saber. todos os dias apanhava o metro no horário das aulas, e regressava ao final do dia.
criamos os filhos incentivando-os a lutar pelos seus sonhos, aí estamos todos de acordo. se os sonhos não forem lucrativos, se forem aparentemente inatingíveis, recua-se.
eu não fui capaz. dei-lhe asas. a mulher olha-me de lado, no parque de estacionamento, por eu permitir que o meu filho lute pelo seu sonho.

