naquela espécie de sonho, tento entrar na água, e, não conseguindo, caminho sobre ela. como se a água fosse de borracha.
onde está a frescura dos salpicos na rebentação das ondas? onde está a temperatura que o corpo se faz com o mar?
a água apresenta-se-me como uma forma, sólida, que fala comigo.
desde quando deixaste de acreditar? pergunta-me. desde quando o que dizes é o que pensas e não o que sentes? quantas vezes te foi dito que é com o coração, não com o cérebro?
e do meu peito começa a jorrar uma corrente de água.
de frente para o mar, incapaz de entrar nele, diz-me o mar: se queres entrar no mar, torna-te mar. se queres entender a terra, torna-te terra. para entenderes o outro, tens que ser o outro.
eu ouço e pergunto: quem sou eu, se para entender tenho que me tornar noutra?
tu és aquela que consegue ser o outro, para perceber.
e ele chama-me, faz-me regressar, precisamente quando eu começava a entender.


