sexta-feira, 14 de outubro de 2016

do dia













de manhã, o funcionário da empresa estava mal-disposto. se era do frio, se era constipação, se era sono? a tudo disse que não. só pode ser rabo de saia, comentaram as mulheres, só pode. lá por casa era assim, quando homem estava macambúzio, era rabo de saia. ressacas curavam-se e até era motivo para galhofa, trabalho ultrapassava-se, doença, graças a deus, tratavam-se, falta de dinheiro ultrapassava-se, noites em branco recuperavam-se, agora problemas com rabos de saia não davam para disfarçar.

no café, silvia tem servido os clientes com uma euforia fora do habitual. tinha ela também passado vários dias com uma nuvem cinzenta em cima da cabeça, disparando relâmpagos por todo o lado. agora, fala alto, empina o nariz, o olhar irrequieto, e nem ela mesma pára a não ser para falar dos lugares onde tem ido com o namorado. reconciliaram-se. contra tudo e contra todos. eu, vendo mais do que devia, percebo que ela tem medo, que não sabe o chão que pisa, e atropela as palavras com as mãos na cintura e a cabeça bem levantada, para que todos percebam que fez as pazes com o homem dela, como ela mesma assegura, o homem dela.

chego a casa e reforço a ideia de que tudo gira à volta dos relacionamentos. aí é que encontramos as grandes lições. fico mais alegre quando sei de ti, alegre também.