skip to main |
skip to sidebar

inspirei a vida toda no ar fresco e límpido desta manhã de domingo.
tenho-te cada vez mais distante. tu de mim e eu a perder-me nesta distância de ti. olho para o teu rosto e tento recordar como era antes do agora. então tenho que ir buscar a caixa onde guardo retalhos de ti. fotografias, poemas, desenhos, aromas, flores, cores, escritos, pedaços de ementas, postais de viagem, areia do deserto, frasquinhos com água de mar e de rio e de chuva, devidamente etiquetados, dentro de envelopes pequeninos, madeixas do teu cabelo grisalho, pêlos das pernas e dos braços, uma camisola quente, um par de sandálias de verão, o correio da manhã com uma gargalhada, os teus óculos velhos, um contador de sardas, recortes de folhas de livros com textos que querias que eu cheirasse e tocasse antes de ler, pacotes de açucar do café nicola a dizerem 'hoje é o dia' para inúmeros desafios, um pequeno quadro com o céu azul para que não me falte, uma ampulheta para eu poder manobrar o tempo, um mapa com as estradas trocadas, um globo onde o norte e os sul unem-se no mesmo lugar.
sou capaz de passar dias a fio a sentir, uma por uma, todas as lembranças de ti. a cada uma, obrigo-me a regressar àquele momento, antes da distância, e penso o que pensei, recordo o que senti.
esqueço por instantes o depois de nem sei quando.
Nuno Lobo Antunes em «Sinto Muito»
Insucesso escolar
- «Senhor Lobo Antunes, o Senhor é um … fadista! O fadista era eu. Tinha dez anos, e estava no 1º Ano do Liceu Camões. A afirmação quanto aos meus talentos era do Senhor Reitor, figura temível e temida que decidiu verificar logo no início do ano escolar, se eu pertencia à mesma linhagem dos irmãos mais velhos. De pé, em silêncio, abriu a caderneta e, com lentidão e método, percorreu página a página, os nomes dos alunos recém-chegados. Não me surpreendeu que tivesse parado no meu. Levantei-me da carteira, hirto como uma sentinela. Não esperava a pergunta, talvez fácil, mas cuja resposta desconhecia completamente. (…) Após uns segundos (horas?) de pausa, o meu destino ficou traçado. (…) Três anos mais tarde a profecia parecia concretizar-se. Escrevi uma redacção onde sugeria que a intensidade dos meus sentimentos de adolescente poderia levar a imaginar que teria algum engenho. O Professor, escritor bem conhecido, leu, sorriu e, com total brutalidade, confirmou os meus receios: era verdade, não tinha qualquer talento. O que ali estava era mau, não prestava, irrelevante na forma e no conteúdo. O Professor disse, o Professor sabia. Ele que tinha escrito a «Aparição». Mais tarde, a docente de matemática tentou demover-me a procurar Medicina, curso difícil, que exigia trabalho e vontade bem para além do que eu prometia ser capaz. Justificava-se o conselho. (…) Da geometria, o conceito que melhor compreendia era a tangente, porque era assim que eu «passava». A professora enganou-se por mero acaso. Na faculdade aconteceu o milagre. Um médico, superiormente inteligente, ouvia-me. Coisa extraordinária que mudou o rumo de uma vida. O simples facto de haver alguém que eu admirava e respeitava, e que respondia de igual forma, transformou o aluno medíocre. As classificações melhoraram de forma notável. «O Futuro já não é o que era!», afirmava Yogi Berra, o famoso jogador de Baseball dos Yankees, conhecido por falar com o coração. Muitas vezes penso no poder da circunstância, de um encontro, no traçado da minha vida. Uma palavra de incentivo, ou outra atirada sem cuidado, marcam uma existência. Definitivamente. Poder enorme, tremenda responsabilidade a dos professores. A ideia que as crianças formam delas próprias depende em boa medida do que se passa dentro dos muros da Escola. Todos os dias avalio crianças com insucesso escolar. As razões são quase sempre múltiplas e complexas. O diagnóstico principal deve ser formulado: dislexia, perturbação da atenção, défice cognitivo. O primeiro mais o segundo em proporções variadas. Um pouco disto ou daquilo. Mas há também os círculos criados pelo sucesso e pelo insucesso, virtuosos ou viciosos, conforme a capacidade de quem educa para olhar as crianças e descobrir, mais além do espanto, que o seu olhar revela o potencial que a mudez das suas bocas esconde. E mudar-lhes o futuro.»
Nuno Lobo Antunes, nasceu em Lisboa a 10 de Maio 1954. Em 1977, licenciou-se em Medicina, pela Faculdade de Medicina de Lisboa.
Foi Assistente Hospitalar de Pediatria e Coordenador da Unidade de Neuropediatria do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Foi Membro da Comissão de Neurologia do “Children Oncology Group”.
Foi consultor de Neurologia Pediátrica para o Departamento de Neurologia e Pediatria do Memorial Hospital for Cancer and Allied Diseases e para o Presbyterian Hospital em Nova Iorque.
Foi ainda Professor Auxiliar de Neurologia e Pediatria na Cornell University Joan & Sanford I. Weill Medical College É actualmente Director Médico e Coordenador das áreas de Neurodesenvolvimento e Neurologia do CADIn, Consultor de Neuropediatria do Serviço de Pediatria Hospital Fernando da Fonseca e Consultor de Neurologia Pediátrica do IPO, em Lisboa.
Membro da American Academy of Neurology, da Child Neurology Society, da Children Cancer Group Tri-State Pediatric Neurology Society, da Society for Neurooncology, da Sociedade Portuguesa de Pediatria, da Sociedade Portuguesa de Neurologia e da Academia Ibero-Americana de Neurologia Pediátrica.