sábado, 24 de setembro de 2016

a chuva e o vento cairam do céu











abro a porta da varanda para ouvir a chuva que cai torrencialmente, e o vento nas árvores aqui ao lado. 
dizem-me que não tenho falado com elas e perguntam-me se perdi a arte de moldar o tempo. o vento fala-me da saudade de mim, e a chuva recorda-me o riso e a carícia ao recebê-la no rosto.
na verdade, tenho andada esquecida da sabedoria dos elementos, do meu eterno namoro com o ar.
há tanta poesia no encontro da chuva com a terra, tanta sintonia no som do vento nas folhas empurradas mansamente, umas contra as outras. e eu tão longe de tudo.
lembro-me de me perguntarem como, em certos momentos, vejo o que não é visível e ouço o que não é audível, e de responder, 'deixa de pensar, e ouvirás, e verás'. realmente, não tenho parado de pensar, para que possa ouvir. e é aqui, agora, neste momento, em que o único som é o que vem do céu, que eu reencontro algum equilíbrio.
gostava de ter palavras eruditas e cientificas para escrever o que sinto, citar filósofos para sustentar o inexplicável, mas não tenho.













das dores


























sim, há alturas em que ele me lê a alma. e apanha-me sempre de surpresa, desprevenida, e é doloroso. faz-me lembrar quando fiquei consciente durante uma cesariana. a impotência perante a dor que sentia ao revolverem-me as vísceras com instrumentos gelados, e a voz do médico ordenando 'aspirem'.
nessas alturas, sem que ele me veja, eu coro, o meu coração dispara, e eu pergunto-me 'como pode?'.
nessas alturas, ele chega quando eu menos espero, pede licença, e vem com as palavras certas, a pontuação certa, no momento certo, e mergulha nas feridas ou no contentamento, como um bisturi. 
depois, afasta-se, e a ausência dele também dói, mas de um mal de náusea, crescente.