quinta-feira, 22 de setembro de 2016

cinquenta e quantos?

















- cinquenta e quantos? pergunta-me ele ao telefone, com aquele tom de melancolia de quem se lembra o que vivemos juntos há tanto tempo atrás.
- e três. respondo-lhe, rindo, que ele gosta de me ouvir rir, e a ternura entre nós nunca passará.
- caramba... e três...
- não te preocupes, que a nossas diferença de idade continua a mesma. brinco.
- ah isso é... quantos são? tantos...vou fazer quantos?...

quando entro na frutaria, logo de manhã, o dono da loja, o sr. filipe, começa a dar saltinhos com os braços no ar, e convém dizer que ele é assim muito bem disposto comigo, e agarra-me para dançar enquanto me canta os parabéns. dou-lhe um abraço e dois beijos enquanto lhe digo 'senhor filipe, a minha vida sem o senhor não seria tão boa', ele ri-se e nem quer saber dos outros clientes, aliás nunca se importa com quem quer que seja, quando quer dizer disparates, e diz.

no café, a mariana, aquela que anda sempre bem disposta e que teve uma vida que deus me livre, parecida com a minha, mas isso ela não sabe, com a excepção, e dou graças a deus por isso, de eu não ser diabética, bem, vem a mariana à mesa e dá-me uma abraço enquanto diz 'só por hoje, faço as pazes contigo', com aquele sotaque da póvoa, que parece que embrulha as palavras na língua. segue-lhe a manuela, também de avental enfarinhado e dá-me dois beijos. eu rio-me. 'meninas, quero ser bem servida'. e sou, todos os dias em que chego, com a minha mãe, sento-me e nem pedir preciso.

é assim que eu gosto, felicitações inesperadas que chegam, felicitações esperadas que não chegam, e todos a desejarem-me um dia fantástico e eu a dizer que sim, que está a ser, e, apesar de estar a fazer as coisas do costume, aqui às voltas com cadáveres de penas, e bolos que hoje são para mim, está a ser um dia bom.

(obrigada, Teresa)