terça-feira, 13 de setembro de 2016

cozinhar























preciso desesperadamente de cozinhar. de transformar. como se fosse da minha transformação que se tratasse.
corto vagarosamente a cebola. são duras as cebolas desta época, tenho que fazer força com a faca e ampará-la com as mãos para que não se desfaça. corto-a em pedaços mais pequenos do que o habitual, quero prolongar o gesto, o momento de atenção. ao lado, espera-me uma bacia cheia de coxas e pernas de frango. pedaços de animais mortos. não deixo de pensar isso todos os dias, os animais que morreram e a vida miserável que tiveram, para que eu possa ter ali aquela bacia cheia dos seus membros esquartejados. tu sabes.
mas cozinhar é dar nova vida, gosto eu de pensar, e quando o faço sinto-me terra, sinto-me fértil. por isso, hoje agarro-me com urgência a esta arte, hoje que me senti tão perto de ti tão longe, hoje que num segundo me senti tão vulnerável, tão frágil. hoje agarro-me aos meus cadáveres para que me segurem à vida daqui, de agora.