domingo, 11 de setembro de 2016

tempo












visto o meu corpo com uma camisa e troco as calças de malha por umas de ganga. o corpo lamenta, quer conforto, carícias de algodão, repouso, compreensão.
parece que foi de repente que se lembrou que gerou três filhos e tomou-se de direitos de envelhecer. assim de repente. como quem diz, 'tem lá paciência, fui dois por três vezes, em tempos tão próximos uns dos outros. nunca me concedeste descanso, agora tomarei formas de cansaço, de tempo'.
mas a verdade é que, e eu quase nem me apercebi, os corpos que me habitaram, cresceram também, e ao deixar-me, a juventude, abandonam-me também os medos, e sinto nascer dentro de mim, uma vontade nova, a de arriscar, a de viajar, a de esbanjar, a de rejeitar trabalho. como se outra eu nascesse, agora, tão perto dos 53 anos.
tudo me pede largueza, o corpo e o espírito.
toma conta de mim alguém desconhecido. uma ave dentro do peito sem medo da morte.