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'no céu esteja quem fez o descanso', dizia a minha avó, diz a minha mãe, e digo eu cada vez que paro para descansar. e agora estou a parar, depois de ter tomado um duche que isto tem sido o dia todo a transpirar. podia até dizer 'a suar em bica', mas a minha avó dizia que 'suar, suam as bestas. as pessoas transpiram', por isso não digo.
então sento-me no sítio do costume, e hoje perdi o recolher das andorinhas, o momento em que eu sinto que é a hora da paz, e ai de quem me incomodar. as pernas doem de pesadas, estico-as. pousado no sofá tenho um tabuleiro com uma alheira e um ovo estrelado, de domingo, aquecidos no micro-ondas, e um copo com cerveja fresca. a minha avó aprovaria. como só com um garfo e com o computador no colo. na televisão, sem som, a martha stewart faz sobremesas apetitosas sem nunca sujar a cozinha. lá fora ouvem-se sirenes e aqui está tudo calmo. faltas tu.
para poupar cinco minutos na manhã, subo por uma rua estreita de piso irregular de paralelos. o carro, coitado, vai aos saltos, subindo um bocado de passeio aqui, subindo rampas ali. se eu poupar muitos cinco minutos ao longo do dia, pode ser que sobre algum tempo para mim. às vezes sobra, nem que seja para contar o que conto aqui.
então, no cimo da tal ruela, tenho que parar para o homem atravessar a passadeira, lentamente. o corpo franzino e esguio não deixava perceber a idade de tão gasto que parecia. seguia vagarosamente com os ombros curvados sobre o seu peito. e os meus cinco minutos a desaparecerem. viro à direita, e o homem, o mesmo, à mesma velocidade, atravessa mais uma passadeira, atravessada também no caminho do tempo que eu queria poupar.
nem olha para mim, o pensamento onde só ele sabe, e eu rendida ao tempo extra que não vou ter, vejo-o passar, com um pedaço de tule, cor verde relva, amarrado ao pulso. levará um amor novo no peito e aquele tecido terá sido posto ali com carinho, para que 'não te esqueças de mim'. nos ombros caídos aconchega a sua mulher, que sem estar lá, está lá sempre.
o homem caminha nas nuvens, certamente, só nas nuvens caminhamos assim devagarinho, para não as desfazermos e chegarmos a casa vestidos de descansaços, com a fita de tule verde relva atada no pulso a sentir que de repente a vida até nem pesa tanto.