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a adversária, caída no chão, batia-lhe no braço dando sinal que desistia, para que ela parasse. e ela não parou, continuou mais um bocado. quando telma a largou, a adversária chorava. dizia o comentador que não sabia se era de desapontamento, se de dor. eu desejava que telma chegasse ao pódio. até àquele momento. sempre existiram, para mim, objectivos mais elevados do que as medalhas.
o rapaz que assistia ao combate ao meu lado 'havias de perder...', seguido de um impropério. ainda bem.
é de manhã que custa a adaptar à vida. logo ao acordar. o som das gaivotas lá fora, o dia que já nasceu, o passar dos minutos que o relógio faz questão de assinalar. passeia a mão pelo corpo, numa tentativa parva de o reconhecer. afinal de contas sempre esteve ali, mas parece que de repente se transformou. sim, parece que foi de um dia para o outro que a carne ganhou mais carne. então deixa a mão deslizar pela pele, numa tentativa de reconciliação por aquela mudança sem aviso. depois, tenta alinhar os pensamentos, o trabalho, a mãe, os filhos, e ela que precisa tanto dela, e quando se apercebe já chegou ao final de mais um dia com o corpo todo cansado, e mais semanas e meses e anos.
mas isto é só de manhã, que depois levanta-se e começa a fazer o que tem que ser feito. de vez em quando vem-lhe à cabeça a pergunta do vizinho 'como gostava que a sua vida fosse?', e ela ali sem saber o que lhe responder.
não tarda muito vai para a rua, e aí vem o mar e o vento, e as pessoas cheias de história de vida com que se cruza, e começa a sentir-se mais terrena. escolhe o café pela vida que as empregadas carregam, o talho pela história do homem que veio do brasil e desde pequenino trabalhou na roça, e quando fala com ela arrasta o som daquela vogal aberta, fazendo parecer que o seu nome, mais do que nome, é uma melodia.
depois, logo logo vai ser noite e vai ouvir as andorinhas, enquanto for tempo de andorinhas.