terça-feira, 2 de agosto de 2016

coceira













a manhã cheira a manjericão e a relva cortada. as árvores estão de folhas caladas, como se aguardassem pacientemente a chegada de algo. a mulher pensa em tudo o que podia ser e na vida que se esfuma e nos verões que rejeita. ouve com indiferença o homem do outro lado do telefone, que lhe diz que o dia começará melhor porque ouviu logo de manhã a sua voz e que isso lhe traz a força anímica que precisa para enfrentar o dia. 
coça-se. sabe que não deve mas coça aquela mancha que lhe apareceu, desta vez na perna. 
a vida é tão absurda, pensa. tão absurda. 
na véspera, o médico interrompeu a consulta para lhe dar um abraço. falavam de espírito e carne, de sexo e sentimento. ela ali com as ideias tão direitinhas a saírem da boca para fora, e naquele momento, com o sol a amornar-lhe os pés, o cheiro a manjericão e relva cortada, acha tudo um absurdo, a sua vida, um absurdo.
veste-se, perfuma-se e sai para a rua. a serenidade em pessoa.