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nestes dias de calor maior o cheiro a maresia entra por todos os lados da casa. cada janela, cada porta. eu, sigo o meu dia com poucos desvios ou devaneios (a não ser tu), que a quantidade de trabalho obriga a algum rigor. mas cá por dentro, bem dentro de mim, do corpo e da alma, devem existir registos de vidas à beira-mar, pisando algas secas logo pela manhã, banhos de mar que limpam de poeiras e de males dos outros, pés descalços adivinhando conchas e areais, o balançar de barcos e abraços de reencontros, ali na rebentação, as ofertas de flores brancas a iemanjá, os entardeceres esperando que o sol se esconda, os amanheceres a ouvir as ondas. e o peito treme, por dentro, e a alma viaja sem tempo, e a vida corre por fora,
todos os finais de dia as pernas pedem-me a água do mar. todos os finais de dia eu nego-lhes a água do mar. por cansaço, por afazeres atrasados, por prioridades falsas.
nestes dias em que a maresia entra por todo o lado, respiro mar e volto a casa, volto a mim, a tempos que não são de agora.
viu um entendimento de almas e sintonia de corpos. um homem e uma mulher, que, sem amarras nem compromissos, se comunicavam com a alma e se fundiam nos corpos. os encontros aconteciam, como se combinados telepaticamente. e amavam-se de uma forma intemporal, imensurável.
era um amor incompreendido, sem estatuto social, proibido moralmente.
então foram condenados a viverem amarrados, de costas viradas. quando cortavam uma corda, ela reconstruía-se. morreram por falta de liberdade.
pelas vidas fora, vivem à procura de algo perdido na memória dos tempos, amarrados pelas regras impostas, olhares inquietos, receosos de fracassos.
reconhecer-se-ão, quando se permitirem voltar a ser almas em sintonia de corpos, vencendo o espaço e o tempo.
permite-te a tua forma de quereres.
quando ele vier, reconhecê-lo-às.