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aqui onde estou sentada, entra, pela porta toda aberta da varanda, uma aragem fria e húmida que se agarra à pele dos braços nus e dos pés descalços. é bom. tão bom. depois da tarde passada nas ruas da baixa, que agora me parecem estreitas, não sei porquê, e as paredes altíssimas que nos deixam enclausurados em corredores sufocantes pelo calor e carros em hora de ponta. aqui, onde estou, tenho uma árvore mais alta do que eu e as casas não me abafam. abençoado nevoeiro...
...
aqui onde estou, penso invariavelmente em ti e estou alegre. não sei porque estou alegre, mas estou. a vida não me é fácil, mas mesmo assim estou, alegre. se estivesses aqui ria-me contigo. é bom rir contigo. podia dizer-te que hoje ouvi um vídeo que me fez sentido, logo de manhã. sabes, logo a começar o dia. é longo, tu não o verás nem ouvirás, mas não é preciso, tu sabes de mim, do meu jeito. tu não estás aqui, mas rio-me contigo na mesma e imagino que inclines a cabeça para trás quando soltas uma gargalhada e eu olho-te deliciada por ter capacidade para te fazer rir, nem que seja só hoje.
a dona fernanda, de quem aqui já tenho falado, passou cá por casa ontem, domingo. é ao domingo que ela cá vem, quando vem, fica-lhe a caminho da missa.
ela, que sofre de muitas impossibilidades, desta vez chegou comovida.
- já foi há muitos dias - conta-me, mas não teve tempo de passar cá antes. e como sabe que eu sou boa a aceitar irrealidades, conta-me daquele que ela tanto quis e por quem esmoreceu o tanto querer e que agora tanto a quer.
- veja só, vizinha, ele, homem instruído e cheio de práticas de igreja, chegou a minha casa num domingo bem cedinho, por volta das sete, com um saco de plástico na mão, dizendo que tinha ido a um terreiro destas crenças brasileiras falar com o espírito de um caboclo, por causa de assuntos do coração dele não conseguir entrar no meu, e estava ali para me pedir permissão para me amar. e eu sem saber como se faz isso. já viu?.
eu, que não, que nunca tinha visto tal coisa, só lhe disse que era bonito, muito bonito, e cá por dentro uma ténue inveja.
- e o saco, d. fernanda? - perguntei.
- o saco... no saco trazia três peças de fruta, uma pêra, um pêssego e uma maçã. trazia também dois frascos, um com um líquido escuro e o outro esbranquiçado. então a fruta era para que a comêssemos juntos, se eu não me importasse. depois as cascas, divididas pelos dois, seriam deixadas num jardim. os frascos traziam um banho de limpeza e outro de protecção. veja só, de protecção...que carinhoso...
- e então? - insisti, com receio que ela deixasse a conversa por ali, já que a hora da missa...
- comi com ele a fruta, vizinha, deus me salve e guarde, mas foi com pureza no coração, fiz os banhos conforme ele me disse, mas as cascas, ai as cascas, com todo o respeito, deitei-as pela varanda abaixo para o jardim do condomínio...
- e o que sentiu, d. fernanda?
- pois, continuo com as impossibilidades no peito e na alma, a querer o que não é alcançável, mas o trabalho correu melhor - e ficou calada sem saber como arrumar o coração.
entretanto já tinha perdido a hora da missa, tomamos juntas um café e ela ficou com aquelas ponderações sobre assuntos que eu não entendo e comovida com o tanto querer que aquele homem tinha mostrado por ela.
eu, em tom de brincadeira, - tome dona fernanda, bolachinhas caseiras também são forma de acarinhar - mas cá no fundo fiquei sem saber como se dava permissão a alguém para nos amar, sem reciprocar.