segunda-feira, 6 de junho de 2016

exames
















alea jacta est, costumava dizer-me o meu pai, a certa altura. alea jacta est, digo aos rapazes. estão em exames. 

nunca fui às escolas consultar pautas de finais de período. nunca me interessaram. interessava-me o percurso, o ano lectivo todo. era a melga de serviço das escolas quando alguma coisa me parecia não correr bem. e, com três filhos, idades próximas, a frequentarem a mesma escola em turmas diferentes, claro que estava sempre lá plantada, de tal forma que pensavam que eu era professora também. mas quando saíam as notas, não me interessava. já estava, não havia mais nada a fazer.

eu sei que o resultado é o culminar do trabalho feito. eu sei. mas que fazer...eu sou de caminhos, de percursos.

eles dizem que sou chata, sim. na insistência para que estudem, para que durmam, para que se alimentem. eu, acho que sou criadora, fêmea guardadora. não sou educadora. sou chata mas não sou educadora. permito tudo desde que não prejudique a harmonia comum. não sou de proibições nem de castigos. depois de o mal estar feito, está feito, só falta aprender com isso e olhar e caminhar em frente.
sou seca.

por isso, agora eles estão em exames e contam que correu mal, ou menos bem, e eu respondo-lhes 'alea jacta est', pensa no próximo, esse já passou. 

sobre o que já vai no terceiro curso e reprovou um ano, se me perguntam, digo que está no quarto ano da faculdade. cambada de alcoviteiros, e ainda lhes digo uns palavrões interiores.

a outro, falo-lhe com os olhos. aliás comunicamos-nos com os olhos, com electricidade, até dá choque, e ele vai-me dizendo que vai reprovar a duas na primeira fase mas que no recurso passa a tudo, e eu sem acreditar em nada, mas sem lhe dizer que não acredito em nada, e quando verificar que tenho razão, continuo a dizer que o que está feito não tem remédio e que é hora de olhar para a frente e eles a pensarem que é tudo fácil para mim quando é tudo tão dificil que nem virgulas ponho, aqui.

ao que não estuda, espero que saiba copiar, que não seja apanhado. digo-lhe que tenha cuidado e que pelo menos faça os copianços de véspera porque isto de fazer antes de sair de casa para o exame põe-me os nervos em franja e pode faltar a tinta nos tinteiros. sei que ele não vai ser de outra maneira, que passa mais de metade do tempo de exame a encontrar posição para que o professor não o veja. e não tem visto. e safa-se. é um bom ser humano e muito bom na sua arte. indomável. tão igual a mim mas com menos medo.

enfim...isto tudo é só para desabafar que gostava de ter sido boa mãe em vez de criadora de filhos. mas estão bem alimentadinhos, estão. e são bons seres humanos.















às vezes fazes-me falta






















as festas sanjoaninas já começaram aqui na terrinha. vai ser quase um mês em festa. foguetes, bailaricos, grupos e cantores, ranchos e cantigas ao desafio. os dirigentes camarários fazem de tudo para que o povo esqueça as dificuldades do dia-a-dia.

ontem à noite, a música dos ranchos ouvia-se de igual forma na rua, como na minha sala onde eu procuro o silêncio, sempre que posso, o maior silêncio possível. e desci. fui para a praça, para o meio das gentes, simples, gentes das aldeias, mulheres de socas, camisas de rendas e saias justas, homens de calças no fundo das barrigas, camisas brancas, e sorrisos, e braços por cima dos ombros, e mulheres a dançarem com mulheres, e homens a dançarem sozinhos, e crianças a ensaiarem os passos, e casais encostados, ele aconchega-lhe a gola do casaco ao pescoço, e riem-se e batem palmas. ninguém nota como a maré vaza do rio cheira mal, cheira a lodo, e a chuva ameaça cair. 

a maior prática de espiritualidade - na minha opinião, claro - ali, naquele palco pequeno, naqueles tocadores de concertinas, naquela assistência, na manuela e no ribeiro, que cantaram ao desafio. a alegria, a simplicidade e a gratidão.

é nestas alturas que me falta o brilho dos teus olhos.



















assim como uma nuvem só acontece se chover, canta a mulher no rádio...e eu penso em ti

estações












digo-te que houve um tempo, não muito distante, em que desejei o que agora me ofereces.
dizes que recuperamos esse tempo, agora.
eu fico calada e olho-te.
resultaria semear o milho no inverno?

eu sou de estações, meu querido. eu sou de terra, de corpo. de ciclos. vieste no inverno fazer a colheita e o terreno estava em pousio.

chegaste tarde, meu querido. irremediavelmente tarde.

quis a vida que eu me construísse em desencontros, em silêncios. contento-me com coisa pouca. as aves, o mar, o vento, a chuva, as palavras poucas,também. 
enquanto isso desfaseio-me.