acordo e penso que é segunda-feira e que deus me ajude. e fico na cama, quieta, esticada, a tentar adivinhar, pela nesga aberta da cortina, se está o céu azul, limpo, ou se as nuvens passeiam-se sobre a tua cabeça.
passo revista ao meu dia, e continuo imóvel. o corpo todo dói, numa resistência muda.
o trabalho, levar o rapaz ao metro, supermercado, seis interruptores partidos, cinco lâmpadas fundidas, um autoclismo avariado, três persianas que não funcionam, infiltração na cabine de dois chuveiros, um disco da placa que não trabalha, três camas a desmontarem-se, o alarme do carro que não funciona, o vidro que se desce, não sobe, os rapazes todos em casa, o processo no tribunal há nove meses, os exames deles e o risco de não renovarem a bolsa de estudos, o meu coração que bate fora do sítio, bate mesmo...
levanto-me, espalho no pescoço uma grande camada de argila, porque sonhei que tinha que fazer isso e faço, e começo o dia, à medida que a argila seca...sabes como é quando a argila começa a secar na pele...
e eu, com este jeito aluado de ser. e tu, aí.
e um melro, exausto, na varanda, deita-se ao sol de bico aberto e penas eriçadas...depois começa a comer desenfreadamente e voa...


