dispo-me para cozinhar. por cima do corpo só um tecido fino e solto, para que o sinta.
todos os dias sinto que é um milagre a transformação dos ovos, manteiga, água e farinha, naquela massa toda, a melhor massa de empadas que já comi, tudo amassado com as mãos. aliás, com o corpo inteiro. enquanto as minhas mãos mergulham na farinha e sinto as texturas e temperaturas todas, o meu corpo também se inclina sobre o balcão e acompanha aquele ondular, que eu prolongo, por prazer.
de seguida, levo os petits gateaux ao forno e toda a casa cheira a chocolate quente. enquanto eu danço. e eu não sei dançar. mas deixo o meu corpo todo movimentar-se ao som da ornella vanoni que rompeu no spotify, assim de repente. vejo-me reflectida nas portas da cozinha e no forno. são quatro minutos cada fornada, várias fornadas. e eu gosto. o meu corpo feito mar, feito onda, até os pés alinham, ou antes, desalinham naquele balançar de ancas e braços e peito e roupa justa que me mostra que eu existo, ao contrário do que diz a ornella.


