- olha a tola
Ao mesmo tempo, apontam para ela com o queixo, já que o
indicador é cobarde. E riem baixinho.
Ela prefere que digam sobre ela:
- olha a louca
E pronto. É o nome que tem segundo as normas deles, dos
outros, dos direitinhos da vida.
Ela caminha sob a chuva, rosto levantado, recebe nos lábios
e na pele e nos olhos aquela água abençoada caída dos reinos dos céus, diz ela,
enquanto repete, como se fosse um mantra
- eu sou livre, eu posso, eu mereço, eu sou grata
É uma espécie de ladainha.
Quem a vê passar, de roupas largas, sapatilhas velhas desapertadas,
corpo feliz, quase chega a sentir inveja. Depois, voltam ao seu papel de pessoas
de responsabilidade e de papel na sociedade, e às crianças, explicam
- coitada, é tolinha. Foi a vida que a pôs assim. Não quis dar
ouvidos a quem devia
E é verdade. A louca não se encaixou nas normas, questionou
as formas de amar permitidas, as prioridades da vida.
Ninguém sabe onde dorme, mas conta que quando adormece, a
alma solta-se dos limites do tempo e do espaço e da matéria, e visita o seu
amado. Diz a louca que um dia há-de levar o corpo com ela e encostar a sua pele à dele e ser só um corpo com ele.
Chove. Vejo-a a atravessar a ponte da doquinha. Rosto levantado
e as gaivotas falam com ela, a mesma linguagem, também elas se viram para a
direcção de onde vem o vento e a chuva e o sol, como se recebessem bênçãos.


