sexta-feira, 6 de maio de 2016

a louca




































Enquanto passa, ouve-os murmurar
- olha a tola
Ao mesmo tempo, apontam para ela com o queixo, já que o indicador é cobarde. E riem baixinho.
Ela prefere que digam sobre ela:
- olha a louca
E pronto. É o nome que tem segundo as normas deles, dos outros, dos direitinhos da vida.
Ela caminha sob a chuva, rosto levantado, recebe nos lábios e na pele e nos olhos aquela água abençoada caída dos reinos dos céus, diz ela, enquanto repete, como se fosse um mantra
- eu sou livre, eu posso, eu mereço, eu sou grata
É uma espécie de ladainha.
Quem a vê passar, de roupas largas, sapatilhas velhas desapertadas, corpo feliz, quase chega a sentir inveja. Depois, voltam ao seu papel de pessoas de responsabilidade e de papel na sociedade, e às crianças, explicam
- coitada, é tolinha. Foi a vida que a pôs assim. Não quis dar ouvidos a quem devia
E é verdade. A louca não se encaixou nas normas, questionou as formas de amar permitidas, as prioridades da vida.
Ninguém sabe onde dorme, mas conta que quando adormece, a alma solta-se dos limites do tempo e do espaço e da matéria, e visita o seu amado. Diz a louca que um dia há-de levar o corpo com ela e encostar a sua pele à dele e ser só um corpo com ele.

Chove. Vejo-a a atravessar a ponte da doquinha. Rosto levantado e as gaivotas falam com ela, a mesma linguagem, também elas se viram para a direcção de onde vem o vento e a chuva e o sol, como se recebessem bênçãos.