terça-feira, 3 de maio de 2016

vestidos largos

























então ele, lá em cima, de vez em quando tem um assomo de memórias de quando se fez homem, e teve corpo, e pele, e mais do que cinco sentidos, pois por ser quem é, permitiu-se sentir muito para além das coisas da pele.

e vendo ele que os espíritos que se candidataram à condição humana, e tiveram a sorte de serem escolhidos para terras generosas, andavam distraídos da bênção que tinham recebido, enviava-lhes ele o sol e o calor e o vento suave, assim fora de horas. o mar, pintava-o ele, nesses dias, de um azul tal que fazia esquecer todas as outras cores, e as gentes pousavam os olhos nele como se repousassem, como se fosse para ele mesmo que olhassem.

e vindo assim aquele tempo tão fora de tempo, as gentes sentiam o corpo despertar e a pele a querer sentir aquelas caricias que ele combinava com os elementos, e com os elementares também, e ficavam as pessoas assim surpresas com os despertares dos sentidos e anseios de fazer as vontades às tentações, e de dar ouvidos ao desejo de se estar vivo.

e era isso mesmo que ele queria. quantas vezes teria ele de lhes lembrar que se tinham corpo e vontades e sentires, era para aprenderem a dar, a receber, a agradecer, a aceitar, a partilhar, a glorificar, a unificar. em vez disso, inventaram as regras e as normas e as proibições e as falsas morais...um desperdício, pensava ele, que tinha que a maior parte do tempo, ser só espírito, e dos mais elevados, raras eram as vezes que se mascarava de mafarrico para rir e brincar com as fadas e com os gnomos.

então ele, qual chuva de verão, em gotinhas de água brilhantes, entrava em cada um dos homens, mulheres, crianças, jovens e velhos, e sentia outra vez a vida na carne, lembrava da fome e da saciedade, do desejo e do prazer, da coragem e da fragilidade, de ser pai e ser filho num só.

por isso nos parece que as estações, estão, por vezes, trocadas.

foi também por isso que se inventaram os vestidos largos.

















o céu está azul





























acordei aérea e não tenciono pousar os pés na terra. o céu está azul, as aves chilreiam por todo o lado e as andorinhas voam ao desafio. e o vento... ah, o vento....

acordei com a loucura colada à pele, com o inconveniente na ponta dos dedos, dirias tu, na polpa...

aqui sentada, junto à varanda, olho as árvores com uma saudade esquecida de tempos que não lembro de ter vivido. tenho tentado ser outra, tenho. mas a pele não me tem servido e solta-se, tal como uma cobra.