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ela mostra-me uma imagem de uma toca que abriga um animal. a criatura espreita para o lado de fora, com olhos brilhantes e assustados. ele está bem ali, sente-se protegido, tem quem o alimente e não precisa de sair. é o medo.
ela reconhece que constrói muros à sua volta para se proteger e para esconder o seu íntimo dos outros, para não os preocupar. os muros, quando crescem, tornam-se poços.
quando ela se esconde dos outros, para não causar preocupação, está a esconder a sua fragilidade, as suas vulnerabilidades, impedindo-se de ser, verdadeira, frágil, com limites, e a humildade é reconhecer os limites, e aceitar ajuda, e permitir-se receber.
por outro lado, impede os outros de aprenderem a lidar com as suas fragilidades, e crescerem com isso.
ela fala como se não falasse e eu ouço-a como se fosse para mim. e é. estamos todos ligados nestes caminhos da vida.
fico a ver o rapaz a atravessar a rua para apanhar o metro. tem 20 anos. leva às costas a mochila e na mão a pasta de desenho. enquanto caminha come um pão porque nunca tem tempo de tomar o pequeno almoço em casa, pois está sempre atrasado. atrasado, na minha opinião, porque ele não quer saber das horas para nada, ou antes, o mínimo indispensável. chega tarde e sai quando não lhe apetece estar mais a ouvir aquelas cadeiras teóricas, que são só duas, felizmente. com as outras, ele até faz horas extraordinárias, em casa.
mas eu fico a olhar para ele. é tão lindo, mas tão lindo, e carrega sonhos dentro dele, e certezas de que os vai cumprir. traz também com ele a verdade, não sei se por preguiça, mas traz. já desejei eu tantas vezes que me mentisse, isso, por preguiça minha, mas ele diz aquelas coisas com toda a calma e permissão de falhar e de ser menos bom porque teve coisas para fazer que lhe deram mais prazer, do que trabalhar para ter notas excelentes, que eu fico com esta incapacidade, que sempre tive, de educar, de o moldar de forma a que seja mais dentro do que deve ser uma pessoa respeitável na sociedade, e em vez disso deixo que ele seja assim como é, lindo de morrer e com o peito cheio de sonhos, e livre, livre.