sexta-feira, 15 de abril de 2016

a minha mãe e a chuva
















a minha mãe tem 77 anos, e, provavelmente todas as maleitas e dores que a idade traz a um corpo que já viveu essa vida toda, mas nunca se queixa. todos os dias sai de casa, com a cabeça erguida, naquela pose altiva lá dela, que faz com que quem a olhe só veja brilho e tenha vontade de ficar por ali, perto dela para aproveitar aquela luz. há pessoas, contudo, que a enfeitam de arrogância e olham-na desconfiada. mas quando ela sai, ou nem precisa sair, quando ela está, vem com aquele sorriso de quem está feliz porque está vivo, e ela saboreia os caminhos, as paisagens, as pessoas, os contratempos, os atrasos, e o tempo que sobra, as presenças e as ausências. quando algum pensamento ou recordação maus tentam tomar conta dela, nalgum momento mais parado, como uma insónia, ela abana os ombros, e escolhe recordações boas para se entreter.
77 anos são vida suficiente para muitos momentos bons e momentos maus. e ela teve-os, muitos. andou pelas terras do ultramar, lidou com doenças da mãe, cancro do filho, desilusões e separações de outro, dificuldades de todas as formas, as vidas de todos aos ombros.
não é fácil viver perto dela.

mas lembrei-me disto a propósito da chuva. quando alguém se queixa que chove, que 'está como o tempo', que 'bom dia seria se não chovesse', ela dá-lhes uma sarabanda e diz 'menino, dê mas é graças a deus por estar vivo e poder ver a chuva!'.




















ela




























Ah sim, tenho muito que agradecer. Diz ela enquanto contraria a preguiça que a quer deitada e coberta, na cama, com o livro azul que anda a ler. Senta-se, e revê o dia que está quase a acabar, desde que se levantou, cheia de náuseas e medos, e a forma lenta com que o mal-estar foi passando. O corpo boicota-a e só muito devagarinho vai, por vezes, aceitando os caminhos que lhe mostra.
Aquele dia foi assim. Parece que esteve dentro de uma betoneira. As maiores batalhas trava-as dentro dela...