quarta-feira, 13 de abril de 2016

quase hora de jantar





















enquanto regresso a casa reparo nas flores vermelhas, quase invisíveis, das árvores que ladeiam a marginal. o dia está cinzento, e, o mar, encarpelado, tem aqueles tons todos de verde que eu gosto. lembrei-me de um tempo em que um susto me fez recear que a minha vida fosse mais curta do que o que eu previa. nesse tempo, as árvores ficaram mais verdes, as flores mais vermelhas, o vento, uma caricia, o sol, uma declaração de amor. entretinha-me a saborear a minha taça de cereais do pequeno-almoço, com os olhos fechados, adivinhando o que lá estava pela textura, pela densidade, pela temperatura, pelo aroma, pelo sabor. cada pequena rotina, que hoje me aborrece, era uma prazer. cozinhar a refeição, fazer a cama dos meus filhos, cheirar a roupa deles, ver a minha mãe rir, eram verdadeiros prazeres. ainda o é, ver a minha mãe rir. era como se eu quisesse prender dentro de mim todos os bocadinhos de vida.

hoje, a esta hora, quase hora do jantar, fecho as janelas que tenho abertas no computador, com trabalho que ficou por fazer, que não tive tempo para tudo. foram para o lixo uma reunião da onu e sondagens sobre a tendência dos jovens árabes aderirem ao estado islâmico. na cozinha, arrumo bacias e acondiciono congeladores. pela casa ainda ardem velas e sente-se o aroma do incenso. ainda me resta trabalho doméstico para fazer até à hora de me ir deitar.
a minha mãe ainda ri, os meus filhos têm saúde, e eu, também me parece que tenho. 
no entanto, acabo o dia com a sensação de que me foi custoso, em vez de sentir o prazer de estar viva. só por isso. 

e foi a Teresa que me fez lembrar de tudo isto. obrigada, Teresa.














cravinas

































Apenas quando o sol bate em cheio na parede do fundo da sala, reparo que perdi o nascer do sol enquanto leio blogs no telemóvel. Não atento à taça com o meu pequeno almoço preferido, e, à minha volta cravinas brancas e vermelhas envelhecem sem que eu as note.