domingo, 3 de abril de 2016

tu não sabes














faço a cama
raramente faço a cama
os lençóis têm cheiro a meu corpo banhado e pijamas lavados. estico os panos, aliso as rendas
sim, leste bem, as rendas
estendo a manta de coral 
sabes como gosto do coral luminoso com que ele pinta o céu para que eu corra a contar-te logo pela manhã
e o lenço azul turquesa que é a cor do arcanjo miguel, coitado, o que me ouve, como te encomendo
aquele azul que se aproxima com o do céu, tu sabes também
debaixo das almofadas escondo um santo
sim, para além de pijama, durmo com um santo
e deito-me contigo

tu não sabes

















fecho os olhos























o meu corpo rebenta em gritos de memórias que a minha alma esqueceu. são memórias do passado, memórias piro-gravadas na carne, nos órgãos, nas vísceras. 

a alma tem memórias que o corpo não viveu, que os olhos não viram, a pele não sentiu. são memórias de passados perdidos em tempos idos, em vidas partilhadas, são ligações sem espaço nem tempo.

o corpo descobre outro corpo, tocando. a alma reconhece outra pele noutra alma, outra alma noutra pele. outra alma noutra alma.

fecho os olhos e reconheço-te.














traços























deixo que traces no meu corpo o mapa da tua ausência.
a alma
a alma brinca de fugir ao teu tracejar