não tenho tido tempo para escrever.
tenho permitido ser sobrecarregada de tarefas que não me deixam espaço para o que gosto. mas, digo eu, que tem que ser assim, que o barco é pesado, e é, mas no fundo, o tal barco são contas para pagar. contas. um carrocel de onde não saio porque não pára, e, para sair, teria que saltar em andamento e poderia magoar-me, embora cá fora tenha estradas abertas por onde caminhar, por onde, embora magoada, poderei ir sarando feridas, reconstruindo dias, alimentando vida, a minha.
mas agora tem sido assim, num medir forças em que eu sei, não sairei vencedora. o corpo queixa-se, manifesta-se, faz greve e ele lá de cima não vai permitir eternamente este desperdício de ser quem eu sou de verdade.
deste lugar onde me sento, vejo o céu azul, as aves, as árvores, o rio, numa imagem tantas vezes enviada, a ti, como se a vida toda coubesse num saltitar de um pardal, e com isso me enganasse a mim mesma, se tal fosse possível.
e de noite, tu sabes, de noite, quando, tão cedo que só a ti te digo, e te falo da vontade dos meus olhos, eles descem as pálpebras num murmúrio de 'estou farta'.
gostaria de ter coragem de dizer que não. não faço. não quero mais. não compensa. mas é tão mais fácil acomodar ao menos bom do que fazer revoluções e mudar a forma de viver.
e hoje, escrevo isto a correr, sem reler, porque a vida fora de mim chama-me, enquanto a outra, aqui dentro do peito é adiada, sempre adiada.


