numa mesa à minha frente, no café, sim, que eu também vou ao café de vez em quando tomar um carioca do mesmo, já que o médico me proibiu daquilo que eu gostava, e gosto, tanto. mas enfim, uma mesa em frente, sentavam-se três raparigas, sendo que eram todas bem rechonchudinhas e curiosas, curiosas porque espreitavam para os telemóveis umas das outras. do aparelho de uma delas vinha, repetidamente, aquele som de quando se recebe uma mensagem pelo messenger. então, a proprietária do dito, suspirava alto e a bom som, ao que as outras mergulhavam a cabeça para perceberem o porquê daquela respiração forte. a feliz contemplada, com unhas que suponho serem de gel, três pretas, uma com um xadrez perfeito, preto e branco, e outra sem cor, que deve ter ficado nalgum prato de arroz basmati, digo eu... bem, a visada, com aquele fenómeno de unhas, que dizem que dura um mês, um mês, quando as minhas tenho que as cortar todas as semanas, bem, então a afortunada fotografava o cartão de cidadão e enviava, sempre entre suspiros, perante a admiração das outras.
eu, que com um olho observava a cena, e com o outro e com os meus dedos com unhas desgeladas recomendava, por mail, passeios ao ar livre, ora eu, fiquei a olhar para a extremidade das minhas mãos, lavadas, sem nenhum encanto.
já em casa, uma beterraba faz-me uma declaração de amor, quando cortada ao meio exibe um coração vermelho. digo eu que foi o fruto, mas vocês sabem que foi ele.
ora, isto é o que escreve quem não tem nada para escrever.


