um som qualquer do telemóvel fez com que ela acordasse. olha para o lado, ele já se mexe. afaga-lhe o cabelo, beija-o e sai sorrateiramente da cama. leva, sem que ele o saiba, os óculos dele, que estavam tombados dentro das pantufas. ele não vê um palmo à frente do nariz, sem eles. desgrenhada, ramelosa, funguenta, afasta-se da cama com os óculos escondidos nas calças do pijama. 'ainda é cedo, dorme', diz, naquele tom carinhoso matreiro. ele nunca a verá naqueles preparos, nunca. só encontrará os olhos sobresselentes depois de ela estar banhada, perfumada, vestida, enfim, mais ou menos apresentável. até lá irá resmungar, como todas as manhãs, dizendo que o artefacto deve ter vida própria, enquanto vai procurando, em pêlo, com os olhos semi-cerrados e às apalpadelas, pela casa toda. é claro que os vai encontrar, pousados, como de costume na mesa de cabeceira.
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